Não entendo.
Isso é tão vasto
que ultrapassa
qualquer entender.
Entender
é sempre limitado.
Mas não entender
pode não ter fronteiras.
Sinto que sou
muito mais completa
quando não entendo.
Não entender,
do modo como falo,
é um dom.
Não entender,
mas não como um
simples de espírito.
O bom é ser inteligente
e não entender.
É uma benção estranha,
como ter loucura sem ser doida.
É um desinteresse manso,
é uma doçura de burrice.
Só que de vez em quando
vem a inquietação:
quero entender um pouco.
Não demais:
mas pelo menos entender
que não entendo.
(Clarice Lispector)